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Educação LINGUAGEM NEUTRA

Sem “todes”: o cálculo político por trás da sanção de Lula

Por que o presidente abandonou uma pauta identitária histórica da esquerda e aprovou a lei que veta a linguagem neutra nos atos do governo

19/11/2025 às 11h09
Por: Douglas Ferreira
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Lula sancionando a proibição da linguagem neutra nos atos administrativos - Foto: Reprodução
Lula sancionando a proibição da linguagem neutra nos atos administrativos - Foto: Reprodução

A sanção da lei que proíbe a linguagem neutra na administração pública não foi apenas um gesto técnico. Foi um movimento político, estratégico e calculado. Lula deixou de lado uma pauta identitária que sempre encontrou eco na esquerda e optou por um sinal claro de pragmatismo. Mas por quê?

. Pressão política e risco de desgaste

A linguagem neutra nunca teve apoio popular expressivo. Pesquisas, debates e reações sociais demonstraram, repetidamente, que a pauta não mobiliza a maioria, pelo contrário, gera resistência.

No Congresso, a rejeição é ainda maior. Deputados e senadores do centro e da direita pressionaram abertamente contra a linguagem neutra, mas a surpresa foi a movimentação silenciosa de parlamentares da própria base governista, que não queriam pagar o preço eleitoral de defender uma pauta vista pela população como artificial e distante das urgências reais.

O Planalto leu o cenário: insistir nisso seria entregar munição à oposição em 2026.

. A sociedade não abraçou a causa

A narrativa de que a linguagem neutra ampliaria inclusão não convenceu o brasileiro comum. Três motivos centrais:

  1. Desconexão com a vida real: Em um país que luta por emprego, renda, segurança e serviços públicos decentes, discutir “todes” parecia um luxo de nicho.

  2. Choque com a tradição linguística: Mesmo pessoas progressistas enxergavam a proposta como uma ruptura artificial com a norma culta.

  3. Efeito reverso: Movimentos identitários radicais acabaram produzindo mais rejeição do que empatia.

"A linguagem neutra mais exclui do que inclui", diz a acadêmica de Direito, Raylana Chagas.

O governo viu que insistir no tema poderia transformá-lo num símbolo negativo. Preferiu abandonar o barco.

. Linguagem simples: pragmatismo administrativo

Ao sancionar a Política Nacional de Linguagem Simples, Lula dá um passo que:

  • Agrada técnicos e gestores, que há anos defendem textos públicos mais claros e acessíveis;

  • Reduz custos de atendimento e aumenta eficiência administrativa;

  • Entregam ganhos reais, abrangentes e politicamente neutros.

Para a escritora e bacharel em Direito Carolina Vedovato, "é preciso preservar a língua nativa".

A proibição da linguagem neutra vem como complemento: se o objetivo é facilitar a leitura, não faz sentido autorizar grafias que despadronizam a comunicação oficial.

. A jogada política

A medida serve a três propósitos:

  • Desarma a pauta moral que seria usada pela oposição em 2026.

  • Reaproxima Lula da maioria moderada, que rejeita radicalismos linguísticos.

  • Afasta o governo da imagem de que vive para atender nichos identitários.

É uma sinalização de “normalidade institucional”, algo que o Planalto sabe que precisa cultivar.

. A mensagem final: o limite do identitarismo

A sanção também é um recado para dentro da própria esquerda: há limites para pautas identitárias quando elas entram em choque com o senso comum e com a lógica administrativa.

Linguagem neutra não desaparece da sociedade - seguirá na internet, nos grupos militantes, no uso individual. Mas o governo federal demarca: não será adotada pelo Estado brasileiro.

E é isso que a maior parte do país queria ouvir.

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