
Por décadas, especialmente entre os anos 1970, 1980 e 1990, quem convivia com maranhenses ou visitava São Luís ou suas rodas acadêmicas escutava a mesma sentença repetida com orgulho: “No Maranhão se fala o melhor português do Brasil.”
A frase virou quase um patrimônio cultural. Ganhou o Nordeste, depois o Brasil. Mas era… um mito. E bem construído.
A crença tinha força suficiente para convencer intelectuais, jornalistas e até parte da elite universitária nacional. Quem frequentava ambientes literários da capital via pronúncias cuidadosas, usos formais da língua e certa tradição culta associada à velha aristocracia ludovicense.
Parecia verdade. Mas nunca foi.
O Maranhão, especialmente São Luís, preservou por muito tempo um uso relativamente mais estável do pronome “tu” com verbo conjugado corretamente - tu cantaste, tu fizeste, como na gramática tradicional.
Isso, somado à imagem de berço cultural e literário do Nordeste oitocentista, ajudou a criar o verniz de “língua pura”.
Mas era uma percepção restrita, urbana, elitizada e, sobretudo, parcial.
Nas décadas passadas, a capital maranhense ainda mantinha marcas de uma tradição linguística formal, sobretudo entre as classes escolarizadas. Isso impressionava visitantes e dava a sensação de que o Estado inteiro falava assim.
Mas bastava viajar para a Baixada, para o interior do Sul do Estado, para o Leste do Maranhão ou para os campos da ilha para perceber a enorme diversidade de ritmos, sotaques e construções.
Ou seja: o mito nasceu de um recorte muito pequeno que foi tomado como se fosse a regra geral.
A sociolinguística moderna - sobretudo através de estudiosos como Marcos Bagno, enterrou a ideia de que existe um “melhor português” no Brasil.
Bagno é categórico: não existe variedade superior. Existe apenas variação, que é natural, legítima e inevitável em qualquer língua viva.
O famoso exemplo da palavra “ruim”, que muitos pronunciam como “rúim”, ilustra como a língua se adapta ao uso, não ao manual.
Não há erro: há mudança.
O mesmo vale para a convivência entre “tu” e “você”, para as concordâncias variáveis, para os regionalismos e para os sotaques.
O Maranhão não é exceção. Nunca foi o paraíso da norma culta. E nunca existiu, no Brasil, um “falar mais correto” do que outro.
A crença maranhense só se sustentou porque ignorava a pluralidade interna do próprio Estado.
Converse com:
um morador da Baixada,
um pescador da Raposa,
um jovem de Imperatriz,
um ludovicense escolarizado dos anos 1980.
O resultado é simples: cinco Maranhões linguísticos diferentes.
E isso não é falha — é riqueza.
Assim como no Rio Grande do Sul, Belém, Florianópolis ou Fortaleza, o “tu” pode aparecer conjugado ou não; e o “você” pode dominar sem cerimônia. A língua segue seu curso, guiada pelos falantes, não pela nostalgia ou por mitos.
O mito do “português perfeito”, ou "pefeitinho" como se diz na "Ilha do Amor", no Maranhão foi útil para construir identidade, alimentar orgulho e reforçar a imagem intelectual do Estado.
Mas é só isso: uma narrativa afetiva.
Não é ciência, não é fato, não é linguística.
A verdade é simples e poderosa:
Não existe um lugar no Brasil onde se fala o melhor português.
Existe um Brasil plural, vivo e múltiplo - e isso vale muito mais do que qualquer mito.
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