
Enquanto o Piauí é celebrado por ter obtido a maior nota do Nordeste no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), há uma crítica latente: quão significativa é essa vitória num cenário educacional caótico? O Brasil segue ocupando as últimas posições no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), ficando em 39º lugar entre 41 países avaliados, o que evidencia um sistema educacional em crise.
O Brasil ficou entre os 15 piores na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) sobre criatividade divulgada em junho passado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesse contexto, o "sucesso" do Piauí, embora mereça reconhecimento pelo esforço, reflete mais uma exceção em meio ao fracasso generalizado da educação no país do que um real avanço estrutural.
Com a nota 4,5, o Piauí registra o melhor Ensino Médio do Nordeste, junto com Pernambuco, e o quarto melhor do Brasil. Esse resultado representa um aumento de 0,3 em relação a 2021, quando a nota foi de 4,2. Já na avaliação nacional que mede a proficiência dos alunos da educação básica em língua portuguesa e matemática, com as turmas do 5º e 9º ano do ensino fundamental, a capital Teresina se destacou com uma nota de 5,9 nos anos finais e 6,4 nos anos iniciais.
O contraste entre os números do Piauí e da capital Teresina escancara ainda mais essa realidade. Apesar do Estado ter sido elogiado pela presidente do movimento "Todos pela Educação", Priscila Cruz, Teresina se destacou em relação à pontuação do Piauí no IDEB. Isso mostra que, mesmo dentro do próprio Estado, a disparidade entre o interior e a capital é gritante. Festejar o Piauí como destaque do Nordeste parece um tanto irônico quando consideramos que a capital, com melhores condições e maior infraestrutura, ainda precisa caminhar muito para alcançar níveis adequados de educação. E o resto do estado? Continua lutando para não ser arrastado pelo caos educacional que impera no Brasil.
Priscila Cruz exaltou o fato de que o Piauí, um Estado sem grande poderio econômico, conseguiu melhorar seus índices ano após ano. Contudo, essa "resiliência" mascara uma realidade mais dura: a educação no Brasil, e especialmente no Nordeste, está afundada em um ciclo de exclusão social que reflete décadas de abandono político. A melhora do Piauí, embora importante, deve ser vista com cautela. A comemoração por um progresso tímido, quando comparado ao colapso educacional de Estados maiores como São Paulo e Rio de Janeiro, parece mais um consolo do que uma verdadeira conquista.
O PISA, que mede o desempenho de alunos em leitura, matemática e ciências, é um lembrete incômodo do quão longe o Brasil está de proporcionar uma educação de qualidade. No Piauí, o quadro não é diferente. Teresina, por exemplo, mesmo com seus avanços, está longe de alcançar um nível internacionalmente competitivo. O fato de a capital ter um desempenho muito superior ao restante do Estado só ressalta a desigualdade interna e a fragilidade estrutural do sistema educacional piauiense.
O governo do Piauí, por meio da Secretaria de Educação (Seduc), tem buscado motivar os profissionais da rede estadual ao premiar as 50 melhores escolas com um 14º salário. No entanto, essa política de bonificação mascara a verdadeira urgência: não é apenas o desempenho que precisa ser premiado, mas a infraestrutura educacional como um todo que carece de uma revisão profunda. O foco em "premiar" as melhores escolas não altera o fato de que o sistema educacional estadual ainda está profundamente desigual, com escolas no interior operando em condições muito inferiores às da capital.
Embora as bonificações e prêmios sejam bem-vindos, eles não podem substituir políticas de longo prazo que tratem da raiz do problema. Celebrar esses prêmios sem questionar as disparidades entre Teresina e o resto do Estado, ou mesmo entre o Piauí e os padrões internacionais, perpetua um ciclo de autoengano.
O grande desafio para o Piauí e outros Estados nordestinos é romper o ciclo de estagnação. Priscila Cruz foi assertiva ao afirmar que alguns Estados, como São Paulo e Minas Gerais, estão derrubando a média nacional de desempenho. No entanto, a análise de que o Piauí é um "exemplo de avanço" precisa ser equilibrada com a percepção de que o Estado ainda está longe de atingir padrões globais de educação. O real mérito deveria estar na capacidade de oferecer um ensino de qualidade para todos, independentemente da localização geográfica ou das condições socioeconômicas.
Portanto, o avanço do Piauí no IDEB não pode ser visto como um troféu isolado. Ao contrário, deve ser um chamado para reconhecer que, enquanto celebramos pequenas vitórias, o Brasil como um todo continua a falhar em garantir educação de qualidade para suas crianças e jovens. O mérito não está em ser melhor que os piores, mas em competir com os melhores — e esse é um desafio que ainda parece distante para a educação piauiense e brasileira.
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