
O Comitê de Política Monetária do Banco Central manteve a taxa Selic em 15%, frustrando o desejo do governo por uma redução, mas surpreendendo ao amenizar o tom sobre a política fiscal. No comunicado divulgado após a decisão, o Copom deu mais espaço a fatores externos como o impacto econômico das medidas tarifárias do governo Donald Trump e o mercado de trabalho ainda aquecido do que ao descontrole de gastos federais, apontado por analistas como peça central da desancoragem das expectativas de inflação.
A ausência de críticas diretas ao aumento contínuo de despesas públicas chama atenção porque, na prática, é dessa expansão fiscal que nasce boa parte da pressão inflacionária. Quando o governo gasta mais do que arrecada e se financia por meio de endividamento crescente, estimula a alta de preços sem contrapartida em produtividade. Ainda assim, o comunicado do Copom se limitou a mencionar de forma genérica o impacto das “políticas econômica interna e externa”, evitando citar nominalmente a conduta do Executivo.
O contraste fica ainda mais evidente quando comparado a comunicados anteriores. Em 2024 e no início de 2025, o Copom foi explícito ao afirmar que a percepção de risco fiscal influenciava expectativas, preços de ativos e a própria trajetória da inflação. Agora, o texto adota uma postura mais neutra, mesmo sem que o governo tenha apresentado medidas que flexibilizem gastos, fortaleçam a âncora fiscal ou reduzam o ritmo de endividamento. Pelo contrário: Brasília segue ampliando despesas e criando exceções ao arcabouço.
Essa mudança no tom abre espaço para interpretações políticas e críticas de que o Banco Central tenta evitar atritos com o governo. Na prática, porém, a política monetária segue obrigada a permanecer dura justamente pelos desequilíbrios criados pelo próprio Executivo. Ao aliviar no discurso, o Copom deixa de reforçar ao público a principal causa dos juros elevados e ainda permite que o governo, que é o maior responsável pelo ambiente inflacionário, critique a decisão como se fosse vítima e não parte essencial do problema.
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