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Cobrança de água de poço: o ‘gás da caneta’ que sufoca o produtor no Piauí

Quando investir na própria sobrevivência vira motivo de cobrança: governo Fonteles penaliza quem se esforça para garantir água — e esquece de oferecer alternativas.

11/08/2025 às 13h15
Por: Douglas Ferreira
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Governo cobra por água de poço artesiano onde não oferece rede de abastecimetno
Governo cobra por água de poço artesiano onde não oferece rede de abastecimetno

Se pensar fosse sinônimo de criativo, os produtores rurais do Piauí estariam em festa: perfuraram poços artesianos às próprias custas para garantir água — enquanto o Estado, que deveria ser parceiro, resolveu instalar hidrômetros para cobrar por esse consumo essencial. Sim, você leu certo: pague por necessitar do básico.

De “negão do poço” a “pagador de tarifa”

O governador Rafael Fonteles negou veementemente a cobrança de água de poço artesiano. Mas é justamente o governo dele quem, na prática, mantém a tarifa. Hidrômetros foram instalados em propriedades rurais — onde não há rede de saneamento — e os produtores, que investiram no próprio sustento, agora enfrentam cobrança adicional.

Contradição que dói

Essa cobrança afronta o bom senso. Quem precisa sobreviver à estiagem e investiu em poço, aquele alívio viável, agora recebe a fatura do Estado. Um produtor da região do Médio Parnaíba sintetizou com ironia:

"É absurdo: paga-se por algo que o governo nem oferece, principalmente vindo de quem se diz governo do trabalhador".

Quem lucra com a seca política?

A audiência pública na Assembleia Legislativa do Piauí (ALEPI), proposta pelo deputado Gustavo Neiva (Progressistas), revelou o desconforto até mesmo dentro da própria base aliada — afinal, quem vai arcar com esse custo é o consumidor final, por meio de produtos do campo mais caros.

Hidrômetro em poço artesiano numa propriedade rural em Itaueira - Foto: Reprodução

“Fui demandado pelo setor produtivo do nosso Estado, que não concorda em pagar mais uma taxa", justifica o deputado, acrescentando que,"o governo alega que é um decreto de 2010, tudo bem, mas eles regulamentaram esse decreto agora em 2025, excluindo pessoas do CadÚnico e de assentamentos, mas se está excluindo alguém é porque alguém vai pagar".

Por fim, Gustavo Neiva, carimba: "o setor produtivo não aceita pagar mais taxa. Estamos aqui para defender o setor produtivo, porque se for implementada mais essa taxa, sem dúvida nenhuma quem vai pagar é o consumidor final”.

O contraponto (ou contra-senso?) do secretário

O secretário estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos Feliphe Araújo, justificou a medida como “cumprimento da lei federal”, essencial para garantir o uso racional da água subterrânea. A pergunta é inevitável: tem alguém desperdiçando água de poço no Piauí? Quem? Onde? Mas enquanto grandes empresários já pagam — porque têm como —, pequenos produtores, mesmo isolados, arcam com a conta.

"A gente isentou várias pessoas, produtores ou empreendedores, porque os grandes empresários, assim como fazem em outros estados, eles já pagam”, afirmou o secretário.

Um projeto federal na contramão da cobrança

Na Câmara Federal, tramita o Projeto de Lei 2497/20, de autoria do deputado Pedro Lucas Fernandes (União). A proposta dispensa do pagamento de taxas pelo uso de água subterrânea proprietários de imóveis — rurais ou urbanos — que não recebem abastecimento público. Justo. Mais do justo, justíssimo. Em essência: os produtores que perfuram poço por conta própria seriam eximidos da tarifa. Uma alternativa legislativa coerente ainda fora do radar do governo piauiense.

Conclusão

Esse episódio não é apenas sobre água. É sobre coerência política, justiça social e transparência. Cobrar quem já não recebe água tratada e investe para sobreviver é o exemplo perfeito do contrassenso estatal. Se o governo não oferece, não deveria cobrar — ponto final.

 

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