
Foi-se Preta Gil. Uma artista plural, vibrante, símbolo de resistência, alegria e afeto. Sua morte, aos 50 anos, vítima de um câncer, nos Estados Unidos, comoveu o Brasil. O velório, realizado com honras no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, reuniu multidões - fãs, amigos, artistas, políticos e personalidades diversas. Era dia de lágrimas, de despedida, de silêncio respeitoso.
Mas bastou um clique, uma imagem, um gesto - para que tudo mudasse. A primeira-dama Janja da Silva, ao lado do caixão de Preta, foi flagrada sorrindo. Não um sorriso tímido, contido, melancólico. Mas um sorriso largo, em um momento que pedia introspecção. As imagens rapidamente viralizaram. E o que era para ser uma cerimônia de dor e homenagem tornou-se palco de polêmica.
Nas redes sociais, o clima foi de indignação. Críticas vieram de todos os lados, inclusive da oposição. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi direto: “Quem chega na frente de um caixão e dá um sorriso desses?” A pergunta ecoou, incomodou e provocou um debate que vai além de política. Afinal, o que leva alguém - ainda mais na posição de primeira-dama da República - a rir num velório?
A assessoria de Janja permaneceu em silêncio. Nenhuma nota. Nenhuma justificativa. Nenhuma tentativa de explicar o inexplicável.
É verdade: a dor se manifesta de formas variadas. O luto, dizem os especialistas, não é uma ciência exata. Algumas pessoas riem diante da morte como mecanismo de defesa, alívio nervoso ou até lembrança afetiva de momentos felizes. Mas convenhamos - há lugares e contextos em que sorrir é mais do que inadequado. É uma afronta.
Não é a primeira vez. Durante o velório do Papa Francisco, Janja também foi flagrada sorrindo. À época, o episódio passou quase despercebido. Mas agora, diante de uma artista querida e de uma comoção nacional, o gesto ganhou outro peso.
A pergunta persiste: foi despreparo, frieza ou mera desconexão com a realidade? É apenas uma reação humana mal interpretada ou um sinal de que a liturgia do cargo foi esquecida?
A primeira-dama é figura pública. Seu papel não é só institucional, mas simbólico. Seus gestos, suas falas, seu comportamento - tudo comunica. E sorrir diante da morte comunica o quê?
Em tempos de hipersensibilidade e redes sociais vigilantes, toda atitude importa. Um sorriso mal colocado pode virar símbolo de desrespeito. Uma ausência de nota pode soar como desprezo. Uma falta de empatia pode custar caro à imagem de um governo inteiro.
Preta Gil merecia mais. Merecia o silêncio. O respeito. O choro sincero ou a saudade contida. Não um riso sem explicação. Porque, neste momento, o Brasil não está sorrindo. Está, mais uma vez, perplexo.
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