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Quando quem limpa a cidade é tratado com descaso: o alerta da paralisação dos garis em Teresina

É inadmissível que trabalhadores essenciais, que enfrentam sol, chuva, lixo e risco à saúde para manter a cidade limpa, precisem parar suas atividades para receber o que é de direito. E mais: é inaceitável que a Prefeitura transfira a responsabilidade para a empresa terceirizada como se isso a isentasse do problema.

24/07/2025 às 13h51
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Divulgação/PMT
Divulgação/PMT

A paralisação dos trabalhadores da limpeza urbana em Teresina não foi apenas uma interrupção dos serviços — foi um grito. Um grito por respeito, por dignidade e por direitos básicos que deveriam ser garantidos sem necessidade de protesto.

Na última quarta-feira (24), motoristas da empresa Recicle Aurora, responsável pela coleta de lixo na capital, decidiram cruzar os braços. O motivo: salários atrasados há três meses, além da falta de pagamento de vales transporte, alimentação e benefícios acordados em convenção coletiva. A paralisação começou com o bloqueio do acesso ao aterro sanitário da zona sul da cidade e se estendeu por quase dois dias.

Somente após a intervenção do Tribunal Regional do Trabalho e um acordo emergencial com a Prefeitura, no valor de R$ 2 milhões, é que os trabalhadores decidiram retomar os serviços. Esse valor, segundo a Eturb, seria destinado para garantir o pagamento imediato dos salários atrasados. O serviço foi normalizado, mas a situação deixou marcas — e sérias reflexões.

É inadmissível que trabalhadores essenciais, que enfrentam sol, chuva, lixo e risco à saúde para manter a cidade limpa, precisem parar suas atividades para receber o que é de direito. E mais: é inaceitável que a Prefeitura transfira a responsabilidade para a empresa terceirizada como se isso a isentasse do problema. A administração pública não pode lavar as mãos diante da precarização de um serviço essencial que está sob sua concessão.

Se a Prefeitura alega ter repassado os recursos, onde está o controle sobre o destino desse dinheiro? Quem fiscaliza se os trabalhadores estão, de fato, recebendo? A terceirização de serviços não pode ser um atalho para a omissão. Ela exige ainda mais vigilância, porque envolve dinheiro público, vidas humanas e um serviço que impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida da população.

Durante a paralisação, o lixo se acumulou nas ruas, o mau cheiro incomodou moradores e aumentou o risco de doenças. Mas quem mais sofreu foi quem já vinha sofrendo em silêncio: os trabalhadores. Muitos estavam com contas atrasadas, aluguel em risco, geladeira vazia. Gente que continuava saindo de casa todos os dias até não aguentar mais — porque dignidade também tem limite.

O acordo firmado agora pode dar algum alívio temporário, mas não apaga o descaso institucionalizado. O problema não é novo. Os atrasos são recorrentes, os impasses com a Recicle Aurora se repetem e os garis seguem sendo os últimos a serem ouvidos, embora sejam os primeiros a começar o dia de trabalho.

A sociedade precisa reconhecer a importância de quem trabalha com limpeza urbana — não só em palavras, mas em ações e políticas. Valorizar esses profissionais é garantir que eles tenham seus direitos respeitados, seus salários em dia e condições dignas de trabalho. Não se pode mais tolerar uma estrutura em que quem limpa a sujeira da cidade é tratado como descartável.

Que a paralisação sirva de alerta. Porque a cidade só funciona quando os invisíveis são vistos — e respeitados.

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