
Enquanto hospitais carecem de insumos e escolas funcionam com telhados caindo, malas, caixas e gavetas transbordam de dinheiro vivo em casas de políticos investigados, sobretudo gestores municipais. A mais nova etapa da Operação Overclean, autorizada pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, escancarou o que muitos já sabiam, mas poucos ousam enfrentar: as emendas parlamentares viraram fonte inesgotável de desvio e barganha política.
No epicentro dessa farra está o deputado Félix Mendonça Júnior (PDT/BA). Seu assessor, Marcelo Chaves, seria o operador do esquema, que envolve prefeitos baianos afastados e presos em flagrante, como Humberto Raimundo (PT) de Ibipitanga e Alan Machado (PSB) de Boquira. Ambos de esquerda e aliados políticos do Planalto. Coincidência? A Polícia Federal encontrou mais de R$ 3 milhões em dinheiro vivo escondidos em armários e gavetas na casa do ex-prefeito de Paratinga, Marcel Carvalho, outro investigado. Notas de R$ 50 e R$ 100 empilhadas como se fossem mantimentos de guerra.
É a institucionalização da corrupção. O desvio é sofisticado, com empresas de fachada, notas frias e "parcerias" com prefeitos que, em vez de aplicar recursos em saúde, educação ou infraestrutura, revertem parte da verba para quem destinou a emenda: o deputado. O nome certo é propina. E tudo com um verniz de legalidade que escancara o abismo entre a lei e a moral pública.
As defesas são previsíveis. O deputado afirma que sua atuação sempre foi "ética". Os prefeitos, que tudo será "esclarecido". Mas o cheiro de podridão se espalha pelas salas do poder. A lógica é simples: quem tem a caneta que destina milhões pode também exigir uma parte de volta. E muitos aceitam. Acordos de bastidores, contratos superfaturados, pagamentos fantasmas.
Até quando? A sociedade assiste ao saque dos cofres públicos com indignação anestesiada. A corrupção, neste cenário, deixou de ser exceção - tornou-se rotina, naturalizada por décadas de impunidade e por um sistema que permite que os próprios beneficiários da farra continuem criando regras para se protegerem.
O mais grave é que a mesma Justiça que hoje autoriza a operação, manda prender e apreender, é a mesma que, amanhã ou depois, solta. Deixa livre como um passarinho que volta ao ninho - e reincide. E tudo recomeça, como numa roda-viva que nunca para.
O Brasil sangra. Mas os que deveriam salvá-lo seguem com as mãos no cofre.
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