
No meio do interior texano, ao longo da modesta rodovia FM 1209, Elon Musk está construindo algo que parece saído de um roteiro de ficção científica. Ao lado de pastos, trailers e cavalos, surgem prédios metálicos com logotipos da SpaceX, The Boring Company e X — sua rede social. O local improvável, perto de Bastrop, a uma hora de Austin, foi escolhido para ser o novo centro de operações do homem mais rico do mundo. A mudança de Musk da Califórnia para o Texas marca não só uma guinada geográfica, mas também ideológica: ele abandonou o progressista Vale do Silício e abraçou o conservadorismo texano.
Com uma política estadual favorável às empresas, terrenos baratos e mão de obra qualificada, o Texas se tornou um ímã para o setor de tecnologia — especialmente para bilionários como Musk, que vêm se afastando das regulações da Califórnia. Mas sua chegada não é unânime entre os moradores. Enquanto alguns comemoram a criação de empregos e o investimento de mais de US$ 280 milhões (R$ 1.6 bilhões) na economia local, outros temem a urbanização acelerada, o impacto ambiental e o que chamam de “colonização corporativa”. Violações ambientais, como o despejo ilegal de resíduos, já acenderam o alerta.
Apesar de ainda ser um projeto em desenvolvimento, o complexo Musk já conta com uma cafeteria, loja de lembranças e até cabeleireiro no “Hyperloop Plaza”. Há planos para construção de moradias para funcionários — hoje, resumidas a trailers improvisados. A cidade de Bastrop, que tecnicamente não abriga os empreendimentos, ainda assim tem poder sobre eles, e já se movimenta para preservar seu charme histórico. Regras de uso do solo mais rígidas e proteção de áreas verdes foram aprovadas para conter o crescimento desordenado.
Enquanto online a resistência a Musk é mais ruidosa, localmente o sentimento é ambivalente. Há orgulho pelo progresso, mas também receio pelo futuro. Alfonso Lopez, um ex-morador de Seattle que agora vive em Bastrop, resume o sentimento geral: “Se não destruírem minha água ou cavarem um túnel debaixo da minha casa, está tudo bem. Eu até venho aqui assistir um jogo.” Bastrop pode não ter pedido para ser parte do império Musk, mas agora faz parte dele — e tenta manter os pés no chão enquanto os foguetes decolam.
Realidade Piauiense
E no Piauí? Também quente, com vastas áreas disponíveis e distante dos grandes centros, poderíamos perfeitamente ser o “Texas brasileiro”. Mas por que não somos? Enquanto estados como o Texas atraem gigantes da tecnologia com impostos baixos, ambiente favorável aos negócios e infraestrutura em expansão, o Piauí — assim como outros estados do Nordeste — continua espantando investidores. Não por falta de potencial, mas por políticas fiscais pouco inteligentes: ironicamente, temos uma das maiores cargas tributárias do país. É sede de políticos ou apenas miopia econômica? Quanto mais altos os impostos, menos empresas se instalam, menos empregos são criados, e mais jovens migram para o Sudeste. O futuro não se constrói com burocracia e entraves — se quisermos virar um polo de inovação, precisamos parar de punir quem quer produzir.
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