
O caso que chocou Fortaleza revela não apenas mais um feminicídio brutal, mas a frieza calculada de um assassino que usou a confiança, a fé e a aparência de arrependimento como instrumento para se aproximar da vítima. O homem de 52 anos carregava uma bíblia debaixo do braço, vestia roupas sociais “como se estivesse indo para a igreja” e dizia apenas querer conversar. Era uma encenação. Uma armadilha cuidadosamente montada para matar.
Francisca Claudene Rodrigues da Silva Assunção, de 51 anos, acreditava estar diante de alguém disposto ao diálogo após o fim do relacionamento de cerca de 20 dias antes. Naquela noite, ela estava na casa de uma amiga participando de um momento de oração. O ambiente era de paz, fé e acolhimento. Foi justamente nesse cenário que o criminoso apareceu.
Segundo depoimentos prestados à polícia, o homem procurava o novo endereço da ex-companheira e conseguiu entrar na residência sem levantar suspeitas. A amiga da vítima chegou inclusive a oferecer café ao visitante, acreditando que ele realmente desejava conversar. Era a máscara perfeita. Como um lobo vestido de cordeiro, ele aguardou o momento certo para atacar.
Pouco depois, os gritos romperam o silêncio da oração. “Misericórdia, tem compaixão de mim, me lava no teu sangue”, teria gritado a vítima enquanto era golpeada diversas vezes. A cena expõe o contraste brutal entre a aparência de devoção apresentada pelo assassino e a violência extrema cometida segundos depois.
A amiga ainda tentou impedir o crime, colocando-se entre os dois. Também acabou ameaçada. O criminoso tentou golpeá-la, mas a faca caiu após ela conseguir reagir com um chute. Claudene, porém, não resistiu.
O feminicida fugiu em uma motocicleta, mas acabou preso após colidir contra um ônibus em Fortaleza. Com ele, a polícia encontrou o objeto perfurocortante utilizado no assassinato, além do celular e da moto usada na fuga. O suspeito já possuía antecedentes criminais por tentativa de estelionato, o que reforça o perfil manipulador apontado pela investigação.
O caso escancara um padrão recorrente nos crimes passionais: o agressor muitas vezes não chega armado apenas com faca ou violência física. Chega também disfarçado de arrependimento, de vítima emocional, de homem “transformado”. Neste caso, até a bíblia virou parte do teatro macabro usado para baixar a guarda da vítima.
Mais uma vez, o Brasil presencia um feminicídio marcado pela premeditação, pela perseguição e pelo sentimento de posse. Um crime que começou muito antes da faca. Começou no momento em que o assassino decidiu transformar a confiança da vítima em sentença de morte.
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