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Turismo CONTRAO MILIONÁRIO

Turismo abandonado e contrato milionário levantam suspeitas no Piauí

Enquanto infraestrutura turística se deteriora no litoral e no sertão, Secretaria de Turismo firma acordo de R$ 4 milhões com grupo de comunicação e pesquisa

28/03/2026 às 04h17 Atualizada em 28/03/2026 às 15h45
Por: Douglas Ferreira
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Secretário Daniel Oliveira e o governador Rafael Fonteles - Foto: Reprodução
Secretário Daniel Oliveira e o governador Rafael Fonteles - Foto: Reprodução

Entre todas as pastas do governo de Rafael Fonteles, poucas parecem tão distantes da sua missão institucional quanto a Secretaria de Turismo. O contraste entre discurso e realidade é gritante. Enquanto o turismo piauiense enfrenta dificuldades básicas de infraestrutura, a pasta acaba de firmar um contrato de quase R$ 4 milhões com uma empresa ligada ao empresário Helder Eugênio, proprietário do portal Portal 180 Graus e também de um instituto de pesquisa eleitoral. A situação levanta perguntas incômodas que o governo ainda não respondeu.

No litoral do Piauí, o cenário é desolador. Em cidades como Luís Correia, visitantes convivem com quedas constantes de energia, falta de abastecimento de água e ausência de iluminação pública. A orla, que deveria ser cartão-postal e motor econômico, mergulha na escuridão ao cair da noite. Restaurantes e bares encerram atividades cedo por falta de segurança. Circular pela orla depois das 19 horas é assumir um risco desnecessário. O turismo ali parece um barco à deriva. É como tentar promover um restaurante de luxo enquanto a cozinha permanece sem gás e sem água.

A precariedade também se estende a obras básicas que nunca saíram do papel. Um exemplo emblemático é o Mirante do Cajueiro Rei, um dos principais símbolos naturais do Estado. O equipamento turístico existente hoje não foi fruto de uma política pública estruturada do governo estadual. Surgiu de parceria entre a prefeitura local e o senador Ciro Nogueira, que destinou recursos por meio de emendas parlamentares. O episódio reforça a sensação de abandono. A Secretaria de Turismo parece existir mais no organograma do governo do que na realidade concreta do Estado.

É quase como se a Setur existisse para não existir. Parece paradoxal, mas é o que é.

Diante desse cenário de carências estruturais, causa espanto a assinatura de um contrato milionário para a realização das chamadas “Feiras do Futuro: Empreendedorismo, Turismo e Economia Criativa”. O acordo prevê eventos em três municípios piauienses: Teresina, Piripiri e São Raimundo Nonato. Curiosamente, o contrato descreve com detalhes os valores destinados ao interior, mas não deixa claro quanto será efetivamente gasto na capital. Em São Raimundo Nonato, a chamada Feira Regional voltada ao empreendedorismo sertanejo e ao turismo comunitário custará R$ 2 milhões. Em Piripiri, outra feira com foco em empreendedorismo e negócios de impacto receberá mais R$ 2 milhões do erário.

A descrição dos serviços chama atenção pela superficialidade. O documento fala em turismo urbano, negócios criativos e qualificação para startups locais, mas não detalha metas concretas nem indicadores de resultado. É como contratar um engenheiro para construir uma ponte sem especificar onde ela começa e onde termina. O contrato também prevê duração de 12 meses a partir do dia 11 deste mês, com possibilidade de prorrogação automática caso as atividades não sejam concluídas no prazo. Outro ponto curioso é a previsão de subcontratação dos serviços.

Essa cláusula levanta uma questão inevitável. A empresa ligada ao portal de notícias não possui histórico relevante na organização de feiras ou eventos de grande porte. Se haverá subcontratação, isso significa que o contratado poderá atuar basicamente como intermediário entre o governo e empresas especializadas. Surge então a pergunta que ecoa nos bastidores políticos e empresariais. Por que a Secretaria de Turismo não contratou diretamente uma empresa com expertize comprovada nesse tipo de evento?

A escolha de uma empresa ligada a um dos maiores portais de notícias do Estado e a um instituto de pesquisa eleitoral - em pleno ano de eleição - inevitavelmente provoca suspeitas. Em um ambiente democrático, veículos de comunicação e institutos de pesquisa devem manter independência e isenção. Quando um contrato público milionário surge nessa equação, a dúvida aparece quase automaticamente. Seria apenas coincidência administrativa ou uma tentativa de alinhamento político e midiático com um governo que busca consolidar sua imagem para futuras disputas eleitorais?

A inquietação aumenta quando se observa o silêncio editorial em torno de determinados episódios envolvendo o governo. O próprio portal Portal 180 Graus tem sido acusado por críticos de omitir ou tratar com cautela escândalos envolvendo o secretário Marcelo Noleto e a empresa Mega Comunicação, ligada a seu irmão, que teria firmado contratos com o governo estimados em cerca de R$ 100 milhões.

O contrato das feiras ainda traz outro detalhe significativo. Embora o valor inicial seja de R$ 4 milhões, existe previsão de reajuste de até 25%, o que pode elevar o montante para cerca de R$ 5 milhões. Tudo isso em um Estado onde pontos turísticos lutam para manter iluminação pública, segurança e infraestrutura básica.

Pelo lado do governo, quem assina o documento é o secretário estadual de Turismo, Daniel Carvalho de Oliveira Valente. Diante do conjunto de circunstâncias, os questionamentos são inevitáveis e precisam ser respondidos com transparência. Em um Estado onde o turismo enfrenta abandono estrutural, investir milhões em eventos de resultados incertos soa como pintar a fachada de uma casa enquanto o telhado continua desabando.

O Gazeta Hora1 não conseguiu contato com o empresário Helder Eugênio, nem com o secretário Daniel Oliveira. Mas, desde já assegura espaço para que ambos possam expressar suas defesas e opiniões sobre o caso.

Confira o documento completo:

Clique aqui para ver o documento "contrato 180.pdf"

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