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Turismo SAGA CONTINENTAL

A incrível saga dos brasileiros que cruzaram as Américas de carro

A aventura épica que começou no Brasil e terminou nos Estados Unidos

14/03/2026 às 04h10
Por: Douglas Ferreira
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A saga de dois brasileiros pioneiros na rota rodoviária entre Brasil e EUA - Foto: Reprodução
A saga de dois brasileiros pioneiros na rota rodoviária entre Brasil e EUA - Foto: Reprodução

No quadro Gazeta Hora1 Turismo, abrimos espaço hoje para recordar uma verdadeira epopeia sobre rodas. Trata-se da aventura extraordinária protagonizada por dois brasileiros destemidos — Leônidas Borges de Oliveira e Francisco Lopes da Cruz — que realizaram a primeira grande travessia automobilística das Américas partindo do Brasil rumo aos Estados Unidos a bordo de um lendário Ford Model T. Em uma jornada que misturou coragem, improviso e espírito explorador, os dois aventureiros cruzaram 15 países, enfrentaram selvas, montanhas e desertos, e transformaram uma viagem que parecia impossível em uma saga histórica que durou dez anos — um feito que até hoje simboliza ousadia e pioneirismo no automobilismo mundial.

No início do século XX, quando grande parte das estradas do mundo ainda era apenas um traço imaginário nos mapas, dois brasileiros decidiram realizar uma façanha que parecia impossível: sair do Brasil e chegar aos Estados Unidos dirigindo um automóvel.

Os protagonistas dessa aventura foram Leônidas Borges de Oliveira e Francisco Lopes da Cruz, dois homens movidos por um espírito de ousadia que lembrava as grandes expedições dos navegadores do século XVI.

Eles não viajavam em navios, nem em aviões. O veículo da aventura era um simples Ford Model T, um carro robusto, mas longe de ser preparado para cruzar selvas, montanhas e desertos.

Ainda assim, eles decidiram tentar.

O sonho de cruzar as Américas

A expedição começou em 1928, quando o automóvel ainda era uma novidade em muitas partes do planeta.

A ideia era provar que as Américas poderiam ser ligadas por uma rota terrestre, algo que décadas depois se tornaria realidade com a Rodovia Pan-Americana.

O projeto tinha espírito científico, geográfico e aventureiro. A jornada também pretendia demonstrar a resistência do automóvel moderno e abrir caminhos para futuras ligações rodoviárias entre os países do continente.

Mas havia um problema evidente: quase não existiam estradas.

Ao retornarem ao Brasil foram recebidos por autoridades e empresários, incluindo representantes da indústria automobilística americana - Foto: Reprodução

 

Uma viagem que durou dez anos

A jornada que deveria durar alguns meses acabou se transformando numa epopeia de quase dez anos.

Entre 1928 e 1938, os brasileiros percorreram cerca de 27 mil quilômetros, cruzando:

  • selvas tropicais

  • cordilheiras andinas

  • desertos

  • rios sem pontes

  • regiões onde o automóvel jamais havia passado

Durante o percurso, os aventureiros atravessaram 15 países e enfrentaram desafios que hoje parecem inacreditáveis.

Quem financiou a aventura

A expedição contou com apoio parcial da imprensa e de patrocinadores interessados em divulgar a capacidade do automóvel. A marca que mais se beneficiou da aventura foi a própria Ford Motor Company, já que os exploradores utilizavam o lendário Ford Model T.

Ainda assim, grande parte da jornada foi sustentada pela improvisação, por doações e pela hospitalidade da população local.

O maior desafio: a floresta amazônica

Um dos trechos mais dramáticos da viagem foi a travessia da Amazônia. Sem estradas e com vegetação quase impenetrável, os brasileiros precisaram literalmente abrir caminho na mata.

Em muitos trechos:

  • árvores eram derrubadas para permitir a passagem do carro

  • pontes improvisadas eram construídas com troncos

  • o veículo era puxado com cordas e roldanas

Em alguns momentos, a expedição avançava apenas alguns quilômetros por dia. Era menos uma viagem automobilística e mais uma expedição de exploração territorial.

Obstáculos de todos os tipos

A cada novo país surgiam novos desafios. Os aventureiros enfrentaram:

  • estradas inexistentes

  • rios caudalosos

  • pane mecânica constante

  • escassez de combustível

  • ataques de insetos e doenças tropicais

Houve momentos em que o carro ficou dias parado por falta de peças ou combustível.

Um episódio pitoresco

Em uma região isolada, sem gasolina disponível, os brasileiros precisaram improvisar. Segundo relatos da expedição, o Ford chegou a funcionar com misturas improvisadas, incluindo combustíveis alternativos produzidos localmente.

Em outro episódio curioso, moradores que nunca haviam visto um automóvel se aproximavam para tocar o carro e observar aquela máquina estranha que rugia e levantava poeira pelas trilhas.

Para muitas comunidades indígenas e rurais, aquele veículo parecia algo vindo de outro mundo.

Leônidas e Francisco ainda no início da viagem - Foto: Reprodução

Recepção pelo caminho

Ao longo da jornada, os brasileiros foram recebidos com curiosidade e admiração. Em algumas cidades, eram tratados como celebridades. Em outras, eram vistos com desconfiança.

Mas quase sempre encontravam algo essencial para continuar: solidariedade.

Mecânicos improvisados, agricultores, militares e autoridades locais ajudavam com:

  • combustível

  • comida

  • ferramentas

  • hospedagem

Essa rede de apoio espontânea ajudou a manter viva a aventura.

A chegada triunfal aos Estados Unidos

Depois de quase uma década de estrada, os aventureiros finalmente chegaram aos Estados Unidos. A façanha ganhou repercussão internacional.

Os brasileiros foram recebidos como heróis de uma das maiores expedições automobilísticas da época. O momento mais simbólico aconteceu quando representantes da Ford Motor Company os receberam oficialmente.

Segundo registros históricos, a empresa presenteou os exploradores com um automóvel novo, em reconhecimento à prova extraordinária de resistência demonstrada pelo velho Ford da expedição.

Um capítulo heroico da história do automobilismo

A jornada de Leônidas Borges de Oliveira e Francisco Lopes da Cruz não foi apenas uma viagem. Foi uma demonstração de coragem, persistência e espírito explorador.

Eles atravessaram selvas, montanhas e desertos numa época em que o mundo ainda era, em muitos aspectos, um território desconhecido.

Hoje, quando rodovias e aviões encurtam distâncias em poucas horas, é difícil imaginar o que significava dirigir um automóvel por territórios onde nem sequer havia caminho. Mas essa foi justamente a essência da aventura.

Dois brasileiros, um carro simples e um continente inteiro pela frente.

Uma história digna das grandes epopeias, movida não apenas por motores, mas por destemor, curiosidade e uma dose quase insana de coragem.

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