
O turismo do Piauí é como um carro com potencial de estrada, mas sem combustível, sem asfalto e, às vezes, sem farol. O destino é promissor, a paisagem é exuberante, mas a engrenagem pública insiste em girar em falso. O menor litoral do Nordeste continua sendo um gigante adormecido, não por falta de beleza natural, mas por ausência crônica de estrutura básica.
Falta energia estável. Faltam estradas dignas. Falta água em alguns pontos. Só não faltam discursos. Ao longo dos anos, o Governo do Estado anuncia planos, projeta números e fala em vocação turística. Mas vocação sem infraestrutura é como vitrine sem loja, chama atenção, mas não sustenta negócio.
É sintomático que apenas em 2025 o maior cajueiro do mundo, o Cajueiro Rei, em Cajueiro da Praia, tenha passado a contar com um mirante adequado para observação. E não foi uma iniciativa estruturante do Executivo estadual. Foi viabilizado por emenda parlamentar do senador Ciro Nogueira. O mesmo roteiro se repete em Ilha Grande, onde a revitalização do Porto dos Tatus, portal de entrada para o Delta do Parnaíba, principal atração turística do estado, avança com recursos destinados pelo senador.
Enquanto o Karnak administra a narrativa, o parlamentar ocupa o território.
Ciro Nogueira age como atacante oportunista em campo aberto, identifica o vazio, entra na área e chuta para o gol. E, convenhamos, a área está desmarcada. O governo estadual, que deveria coordenar um plano integrado de desenvolvimento turístico, parece assistir ao jogo da arquibancada. O senador, por sua vez, desce para o gramado e capitaliza cada entrega.
Em Ilha Grande, ao lado da prefeita Marina Brito, Ciro visitou as obras de urbanização do Porto dos Tatus, que receberam quase R$ 600 mil em recursos. Para 2025, assegurou R$ 1,4 milhão destinados a estádio de futebol, campo, custeio da saúde. Para 2026, mais R$ 687 mil já previstos. É investimento pulverizado, pontual, mas concreto. É política de presença.
A fala da prefeita, “não sei o que seria de Ilha Grande sem o senador”, revela mais que gratidão institucional. Expõe uma dependência estrutural. Quando um município passa a enxergar no parlamentar federal a principal fonte de viabilização de obras básicas, algo está desalinhado no pacto federativo local.
Não se trata de desmerecer a atuação do senador. Ao contrário. Ele compreende o jogo político, onde há lacuna administrativa, há oportunidade política. Mas a pergunta central permanece, por que o turismo piauiense depende tanto de emendas individuais para avançar em obras elementares?
O Porto dos Tatus é considerado a porta de entrada do Delta do Parnaíba, o maior das Américas. É como ter um aeroporto internacional com pista de terra. O potencial é imenso, mas a estrutura ainda é insuficiente para transformar fluxo turístico em desenvolvimento econômico consistente.
O que falta ao litoral do Piauí não é marketing. É planejamento integrado, continuidade administrativa e prioridade orçamentária. Emendas parlamentares funcionam como remendos eficazes, mas não substituem uma política pública estruturante. São como baldes para conter infiltrações em um prédio que precisa de reforma completa.
Ciro Nogueira compreendeu que, na ausência do Estado, o espaço político é de quem ocupa. E ocupa com obras visíveis, com placa, com fotografia, com anúncio de estádio e campo society. Depois, corre para a galera, legitimamente, porque política também é narrativa.
O governo estadual, por sua vez, precisa decidir se quer ser protagonista ou figurante nesse enredo. Turismo não se consolida com ações episódicas. Consolida-se com energia regular, acesso viário eficiente, saneamento, segurança e promoção articulada.
O litoral piauiense não precisa de milagres. Precisa do básico bem feito. E enquanto o básico continuar sendo tratado como exceção celebrada, e não como obrigação permanente, o turismo seguirá patinando.
Entre o vácuo do Executivo e a ofensiva das emendas parlamentares, quem ganha visibilidade é quem entrega. E, em política, quem entrega ocupa.
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