
A combinação de falta de fiscalização, proximidade a portos, rotas internacionais pouco monitoradas, dinamismo imobiliário e comércio aquecido transformou os principais destinos turísticos do litoral brasileiro em áreas estratégicas para o crime organizado. De Norte a Sul, facções criminosas se instalam em cidades antes vistas como refúgio seguro de turistas e moradores, ampliando sua influência e enfraquecendo a presença do Estado.
Especialistas alertam que a disputa por esses territórios, antes discreta, agora ocorre de forma aberta, expondo o problema e afetando a sensação de segurança em locais conhecidos como “paraísos tropicais”. Para o delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública do Paraná, Wagner Mesquita, esses destinos oferecem condições ideais para lavagem de dinheiro, venda de drogas e até para servir como esconderijo de criminosos. Além disso, no Nordeste, a proximidade com a Europa e os Estados Unidos favorece o tráfico internacional.
A força das facções ficou evidente em agosto, quando as polícias Civil e Militar realizaram a megaoperação Nordeste Integrado, com 510 mandados de prisão e busca em oito estados da região. Mais de 5,9 mil agentes participaram da ação, que teve como objetivo frear o avanço de grupos criminosos envolvidos com tráfico de drogas, homicídios e roubos de cargas.
Casos emblemáticos, como o assassinato do adolescente paulista Henrique Marques de Jesus, de 16 anos, em Jericoacoara (CE), expõem a gravidade da situação. De acordo com a investigação, ele foi confundido com integrante de facção rival e morto brutalmente em 2024, durante férias com a família. No Ceará, a presença ostensiva das facções ocorre desde 2015, com avanço progressivo para o litoral e cidades do interior.
A mesma realidade se repete em destinos como Porto de Galinhas (PE), Praia da Pipa (RN) e Búzios (RJ). Nesses locais, facções e milícias impõem regras próprias, monitoram moradores e turistas e transformam áreas turísticas em centros de atividades criminosas. Segundo o advogado e especialista em segurança pública Fernando Capano, o domínio dessas organizações não ocorreu de forma repentina, mas como resultado de anos de ocupação logística e social sem resposta efetiva do Estado.
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