
Ao reler Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb, é impossível não pensar em Teresina. A obra trata de sistemas que não apenas resistem ao caos, mas que se fortalecem com ele. Taleb chama de “Cisne Negro” o evento raro, imprevisível e de alto impacto — como uma pandemia, uma crise climática ou uma catástrofe econômica. Teresina, nossa capital tão viva quanto vulnerável, tem enfrentado seus próprios Cisnes Negros nos últimos anos. E, em 2024, a eleição de Silvio Mendes reacendeu a esperança de que é possível reconstruir a cidade a partir das lições do colapso.

Não é exagero dizer que Teresina vive um momento de esgotamento urbano. Ruas esburacadas, transporte público à beira da falência, crescimento desordenado das periferias e a ausência de saneamento básico em diversas regiões compõem um cenário de profunda fragilidade. Mas os desafios do novo prefeito vão além do visível. Silvio Mendes precisará conduzir a cidade em direção a uma estrutura antifrágil — isto é, mais resiliente, adaptável e capaz de se fortalecer com os próprios choques que hoje a abalam
A lógica do “cisne negro” se aplica perfeitamente ao contexto urbano de Teresina. Não foi uma única tragédia que causou o atual estado de deterioração, mas sim a soma de negligências, improvisações e falta de visão estratégica. O colapso do sistema de transporte, por exemplo, não ocorreu do dia para a noite. Foi um processo lento, agravado por decisões fragmentadas e pela ausência de um modelo econômico que valorize a mobilidade como vetor de inclusão social. As consequências das chuvas em diversos pontos da cidade, desde a zona norte até a zona sul e a crise hídrica em bairros periféricos não são apenas problemas técnicos — são sintomas de um sistema frágil, incapaz de se adaptar aos desafios do século XXI.
O Plano Diretor de 2019 trouxe conceitos modernos como “Ruas Completas”, uso misto do solo e adensamento inteligente. No entanto, a lacuna entre o planejamento e a execução tem mantido a cidade à mercê do improviso. Um sistema urbano frágil colapsa diante do imprevisto. Um sistema antifrágil, por outro lado, aprende com os choques, reconfigura-se e emerge mais forte.
O prefeito Silvio Mendes, com sua experiência administrativa, tem a oportunidade de implementar uma agenda ambiciosa e necessária. Tornar Teresina antifrágil implica repensar sua economia, suas infraestruturas e suas formas de governança. É preciso atrair investimentos que gerem empregos qualificados, por meio de políticas de incentivo a startups, ao empreendedorismo e à inovação tecnológica. Apostar na educação prepara a juventude para o futuro e reduz desigualdades.
Na saúde, o fortalecimento das unidades básicas pode descentralizar o atendimento e aliviar os hospitais sobrecarregados. Na infraestrutura, obras de drenagem urbana, requalificação de vias e expansão do transporte coletivo devem ser prioridade — não apenas por uma questão estética, mas porque cidades bem estruturadas resistem melhor às crises climáticas e econômicas.
O ano de 2025 pode marcar um ponto de virada. Teresina tem potencial para se reinventar, desde que abrace uma visão de futuro que vai além da remediação e aposte na transformação estrutural. Silvio Mendes tem diante de si uma tarefa difícil, mas também uma oportunidade histórica: reconstruir não apenas a cidade física, mas o contrato social que a sustenta. Inspirados por Taleb, que nos ensina a crescer com o inesperado, podemos imaginar uma Teresina mais robusta, dinâmica e preparada para os próximos Cisnes Negros — porque eles virão.
Constance Jacob Melo
Arquiteta e Urbanista
Doutora em Planejamento Urbano
Especialista em reabilitação urbana e desenvolvimento de cidades resilientes
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