
A mudança de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para Madri ganhou um ingrediente diplomático.
Mensagens recuperadas do celular da lobista Roberta Luchsinger, segundo reportagem do Metrópoles, mostram que o então embaixador brasileiro na Espanha, Orlando Leite Ribeiro, colocou serviços da embaixada à disposição dela e da mulher de Lulinha, Renata Abreu Moreira, durante o processo de instalação da família na capital espanhola, em 2025.
E não foi exatamente aquela velha orientação do tipo “procure um corretor de imóveis”.
O embaixador ofereceu funcionária da embaixada para acompanhar visitas a escolas, orientou sobre bairros de Madri e chegou a mencionar a disponibilização de uma van da representação diplomática para auxiliar na compra de móveis.
O Itamaraty, entretanto, afirma que a van não chegou a ser utilizada. A pasta confirmou que o setor educacional da Embaixada do Brasil em Madri prestou apoio a Luchsinger por possuir contatos com escolas locais.
As mensagens revelam uma relação bastante próxima.
Em janeiro de 2025, Orlando Leite Ribeiro se colocou à disposição para auxiliar na escolha de escolas para os filhos de Luchsinger e de Lulinha.
Em áudio, segundo a reportagem, o diplomata afirmou que poderia designar “uma funcionária da embaixada” para acompanhar as visitas.
A mensagem acabou encaminhada por Luchsinger para um grupo que incluía Renata Moreira e Lulinha.
Em outra conversa, o embaixador também ofereceu informações sobre bairros da capital espanhola.
Entre as sugestões estava La Moraleja, descrito por ele como uma região de classe média/alta, com casas sofisticadas, comparável ao Lago Sul de Brasília.
Convenhamos: para quem está chegando a uma nova cidade, não é exatamente o serviço “Google Maps”.
As conversas mostram que o auxílio não teria ficado restrito à escolha de escolas.
Em fevereiro e março de 2025, Luchsinger e Renata Moreira discutiam visitas a instituições de ensino, inclusive à Universidade de Salamanca.
A lobista chegou a dizer que seria interessante contar com alguém da embaixada como intérprete.
“Vamos pedir p Orlandinho”, respondeu Renata, segundo as mensagens reproduzidas na reportagem.
O próprio embaixador teria intermediado uma reunião de Luchsinger com o reitor da Universidade de Salamanca, Juan Manuel Corchado Rodríguez.
Outro detalhe chamou atenção.
Em setembro de 2024, Luchsinger teria utilizado os serviços de um contato salvo no celular como “Tiago Motorista Embaixador”, número espanhol e comunicação em português.
A existência desse contato, por si só, não demonstra irregularidade. Mas ajuda a explicar a extensão da rede de contatos à qual a lobista aparentemente tinha acesso.
Segundo o Metrópoles, Roberta Luchsinger organizou a mudança de Lulinha e arcou com os custos financeiros da transferência. Ela própria pretendia se mudar para Madri, mas o plano não se concretizou.
Lulinha vive na capital espanhola desde junho de 2025 e, de acordo com a reportagem, planejava permanecer no país por pelo menos dois anos.
O ponto relevante, portanto, não é apenas quem pagou a mudança.
É quem ajudou a organizá-la.
Procurado pela reportagem, o Ministério das Relações Exteriores confirmou que o setor educacional da Embaixada do Brasil em Madri prestou apoio a Luchsinger em relação às escolas, justamente por possuir contatos com instituições de ensino locais.
Ao mesmo tempo, o Itamaraty negou que tenha ocorrido cessão de veículo da embaixada e afirmou que a van mencionada em uma conversa não chegou a ser utilizada.
Essa distinção é importante.
Uma coisa é a existência de apoio institucional na área educacional, confirmada pelo próprio Itamaraty.
Outra é afirmar que houve utilização de recursos públicos para transportar móveis ou realizar uma mudança particular — algo que a pasta nega ter ocorrido.
O episódio levanta uma questão que vai além da mudança de Lulinha para Madri.
Até onde pode ir a assistência de uma representação diplomática a brasileiros no exterior quando os beneficiários mantêm relações pessoais com autoridades e pessoas próximas ao poder?
O Itamaraty sustenta que houve apoio do setor educacional da embaixada. As mensagens divulgadas mostram um embaixador bastante solícito. E a reportagem apresenta outros contatos e intermediações.
Nada disso, isoladamente, estabelece que tenha havido ilegalidade.
Mas a história mostra algo que merece ser examinado com lupa: quando a fronteira entre serviço institucional e favor pessoal começa a ficar fina demais, qualquer mensagem de WhatsApp pode transformar uma simples “ajudinha” em uma pergunta de Estado.
E, neste caso, a pergunta chegou justamente de Madri.
Confira o áudio de conversa entre Luchsinger e o embaixador Orlando Leite Ribeiro:
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